No chafariz o tênue gorgolejo
era pura magia. O encantamento
enchia a clara noite e, lento, lento,
iam sacudindo os sonhos, e o Desejo.
Mas isto foi no efêmero momento.
De há muito a voz calou-se. Agora vejo
pedras tombadas, seca a fonte, e o adejo
de asas de sombra e de aniquilamento.
E o luar, que ao toque mágico da antiga
cantiga da água, era também cantiga
fluindo, fresca e feliz, do céu profundo,
nesta hora triste e trêmula da vida,
condensado em lembrança dolorida,
é silêncio infinito sobre o mundo.
Tasso da Silveira
Por quem se fez a noite do meu canto
fosse talvez pastor dessa ocarina
de muitos sons vibráteis como pranto
de partitura agônica e ferina
em que a medida exata principia
no labirinto negro - infinda hora.
Inevitável noite que em si é dia
mesmo sabendo raio dessa aurora
há de sangrar a inversa tessitura:
rubro poente - líquida ferida
a refletir a dor de tanta agrura
nesses perdidos traços que na vida
vão se forjando em forma de escritura
para a amplidão da noite desmedida.
Aníbal Beça
NOITE CHUVOSA
Claudia Dimer
Vaga a noite chuvosa; triste e lenta
A vislumbrar a luz em relampejos...
Parece louca e morta de desejos
De aumentar o vazio que atormenta.
Dela todo o ser vivo então se ausenta,
São gélidos e rudes os seus beijos,
traz uma fina chuva que em voejos
lacrimeja na rua nevoenta.
Noite chuvosa, passe!... vá direto
P'ra algum lugar de sombras, não sei onde...
És tu que rouba estrelas? onde estão?
Tu és tão triste e fria em teu trajeto
Que até a lua se te vê se esconde
P'ra se abrigar nos braços da amplidão!
NOITES AMADAS
(Auta de Souza)
Ó noites claras de lua cheia!
Em vosso seio, noites chorosas,
Minh’alma canta como a sereia,
Vive cantando n’um mar de rosas;
Noites queridas que Deus prateia
Com a luz dos sonhos das nebulosas,
Ó noites claras de lua cheia,
Como eu vos amo, noites formosas!
Vós sois um rio de luz sagrada
Onde, sonhando, passa embalada
Minha Esperança de mágoas nua...
Ó noites claras de lua plena
Que encheis a terra de paz serena,
Como eu vos amo, noites de lua!
SILÊNCIOS
(Patricia Neme)
Os sinos cantam... O dia adormece,
envolto em véus, de rubro aquarelados.
A lua surge, mansamente... E cresce...
E alumbra os sonhos dos enamorados.
Uma coruja espreita o que acontece,
nos vãos da noite... Segredos guardados...
Jasmins sorriem, o ar refloresce;
os anjos brincam por sobre os telhados.
Luzes se apagam, o silêncio impera...
Uma ilusão, desperta e fica à espera
de quem jurou-lhe o amor que não tem fim.
O sino finda o dia... Traz a noite...
E vem a solidão, feroz açoite,
nas mãos de uma saudade que há mim!
A NOITE
(Julia da Costa)
Brilha o céu, mas em vão soluça de brada
A terra ansiosa, com pueril receio!
É densa a treva; nessa paz calada
Funda tristeza nos oprime o seio!
Tudo fenece, embaixo da orvalhada
Repousa o campo de perfumes cheio!
Negro é o mar, a floresta sossegada,
Dormem as aves da espessura em meio!
Embalde a noite traiçoeira e linda
Enche de encanto os bosques e atalhos,
E, enquanto de fulgor o espaço alinda,
Seu manto enfeita de gentis orvalhos:
Mentem os ermos na amplidão infinda!
Mentem as flores a tremer nos galhos!
SONETO NOTURNO
(Ruy Espinheira Filho)
Penso na noite como um rio profundo
e lembro coisas deste e de outro mundo.
Outros mundos, aliás, que a vida é vasta
como diversa. E mesmo assim não basta,
o que nos faz tecer ainda outras vidas
nas nuvens da alma, e que nos são vividas
com tanta força quanto as outras mais,
em seus sonhos de agora e de jamais
(ou melhor: com mais força, pois que estamos
ainda mais vivos no que nos sonhamos).
Penso na noite como um mar sem fim
quebrando sombras sobre o cais de mim.
E , enfim, sem esperanças e sem prece,
pressinto a noite que não amanhece.