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quinta-feira, 28 de junho de 2012

OLHA, NADIA!


Pintura de Albert Bierstadt

OLHA, NADIA!
(Afonso Estebanez)

Olha, Nadia! Mas olha como quem estuda
o litúrgico ofício de uma sombra caminhar
depressa como um pensamento de Neruda
no outono dos vinhedos para além do mar...

Mas olha como quem orando presta ajuda
a essas sombras que rastejam sem passar...
Cala a noite, e a sombra que parece muda
segue cantando enquanto a luz vai rastejar...

Não olha para trás! A luz segue assustada
e a nossa sombra vai à frente descansada...
Ô, Nadia! O que antes era luz vai apagar!

A sombra como a morte é essa luz tardia
que se arrastando segue entre noite e dia
de alma e corpo no pó aonde vai chegar!

POR UM GRANDE AMOR


Tela de Willem Haenraets

POR UM GRANDE AMOR
(Afonso Estebanez)

Nascer é como ouvir passar um rio
na concha do recôncavo da aurora
que acorda no crepúsculo sombrio
do tédio de passar sem ir embora!

Viver é como estar em pleno estio
de quando a primavera comemora
nos arco-íris do sonho o desfastio
de reflorir do estio de quem chora!

Sonhar é como reinventar o acaso
da causa dos amores sem destino
nas histórias de reinvenção da flor.

Morrer!... É como recontar o caso
de reinventar o sonho clandestino
de ter vivido por um grande amor!

SOMBRAS


Pintura de Willem Haenraets

SOMBRAS
(Afonso Estebanez)

Parece o teu retorno a não sei onde
parece que refaço e não sei quando
pareço perguntar nem me responde
o celerado amor que vou sonhando...

Parece que nem tudo corresponde
ao teu eco de amor me retornando...
Parece que o silêncio não esconde
esse grito de amor te relembrando...

Pereço uma estação no fim da linha
pareço uma canção que me perdeu
pelos céus de verão sem andorinha...

Parece que o passado se esqueceu
de que outro dia ainda fostes minha
e não se lembra mais de que fui teu...

LEMBRANÇAS DO LUGAR


Pintura de Guido Borelli

LEMBRANÇAS DO LUGAR
(Afonso Estebanez)

Querida, vê no pranto que extravasa
o coração quando a lembrança aflora...
Os gerânios... As rosas... Como atrasa
o tempo entre o crepúsculo e a aurora!

Há sonhos que ainda vagam pela casa
em meu rústico albergue da memória...
E ainda um lírio que a min’alma vaza
de saudade do amor que ainda chora...

Nos beirais da varanda as andorinhas
bailam, querida, e as ninfas seminuas
das ribeiras em flor bailam sozinhas...

Beirando a vida nos beirais das ruas,
tu vives de sentir saudades minhas
e eu morro de sentir saudades tuas...

FLOR DA ALMA


Pintura de Willem Haenraets

FLOR DA ALMA
(Afonso Estebanez)

Vem desse amor eterno de você
uma canção tangida pelo vento
uma flauta no som do pensamento
que ressoa na alma e não se vê...

Brisa da tarde nos florais do ipê
num cântico de beijos ao relento...
Um feitiço de amor à flor do tempo
que vem sem precisar dizer porquê...

Uma canção de ser tão docemente
percebida... Tão leve se pressente
que a gente nem precisa perceber...

Basta ao amor plural de sua vida
saber-se a alma eterna e resumida
na alma de uma flor no alvorecer...